D. Virgínia fez 103 anos



A D. Maria Virginia dos Santos comemorou ontem, dia 4 de Abril, 103 anos. Trata-se da utente com mais idade na Santa Casa da Misericórdia de Barcelos.


Nasceu no dia 4 de Abril de 1909 em Barcelinhos, freguesia onde permaneceu a maior parte da sua vida. Seu pai, Torcato António dos Santos era escriturário e faleceu muito cedo vítima de doença, aos 40 anos. Sua mãe Leopoldina Amélia dos Santos, costureira de profissão ficou com quatro filhos para criar. Virgínia tinha 3 irmãos, de saúde débil. Frequentou a escola até à quarta classe. Aos 14 anos, aprendeu a profissão da mãe com uma modista e foi trabalhar para casas ricas, como recorda nomeadamente a do Dr. Sá Carneiro. Passava temporadas no Porto onde fazia companhia às meninas, indo ao cinema e ao teatro. Gostava de costurar e, como a vida não era fácil ia trabalhando também em casa fazendo vestidos. Foram difíceis os tempos da ditadura de Salazar, havia pouco dinheiro. Era tudo racionado e a maior parte daquilo que ganhava entregava em casa para ajudar nas despesas.


D. Virgínia teve sempre a responsabilidade de cuidar da casa. Quando a mãe ficou doente já tinham falecido dois dos seus irmãos, de quem teve de cuidar também. “ A minha vida foi sempre muito triste porque havia muita doença em casa. Tive de cuidar de todos, até morrerem. Foi uma tristeza muito grande”. Relembra com dor.Já em casa a trabalhar por conta própria, tinha muitas clientes até porque não existiam prontos a vestir na altura. Até vestidos de noiva fazia.

Alheia a questões políticas

Nunca se importou com as questões políticas. Dava pouca importância ao regime ditatorial, à Pide. Recorda-se de ouvir falar na 2ª Guerra Mundial, mas no seu canto, não lhe despertava interesse. Lembra-se que depois do 25 Abril, a vida melhorou bastante. Gostava muito da sua profissão, que exerceu até casar. Contraiu matrimónio já com uma idade avançada, 55 anos, depois do falecimento da mãe. Álvaro António da Cunha Correia, era viúvo sem filhos. Era dois anos mais novo que D. Virgínia. Dono de uma mercearia, costumava ver a D. Virgínia passar, despertando-lhe a curiosidade. Depois de solicitar informações a uma conhecida comum, acabou por pedi-la em casamento. D. Virgínia aceitou por achar que era um homem de quem se falava muito bem, era inteligente e bem-parecido. Apesar da idade já não permitir gerarem filhos, foram felizes. Ingressaram no Lar Nª Senhora da Misericórdia há 16 anos. A D. Virgínia sempre se dedicou muito ao croché, enquanto o seu marido escrevia para o jornal Barcelense. O quarto onde residiam era o seu mundo. Quando saia para a missa ou para tomar café, a D. Virgínia sempre mostrou ser uma pessoa muito cuidada com o seu aspeto. De baixa estatura, calçava sapatos de salto alto e vestia sempre com elegância. Gostava pouco de sair, mas participou num desfile de carnaval com o seu marido, como reis da festa. Ganhou um prémio no concurso “ Mostra o que sabes” promovido pelo Lar do Comércio. Entretanto, o Sr. Álvaro faleceu aos 87 anos, em 1998, deixando saudades à sua esposa. Muito religiosa conseguiu ultrapassar a dor da perda.

D. Virgínia garante que gosta muito de viver no Lar Srª da Misericórdia. Há cerca de quatro anos, a sua mobilidade deixou de ser a mesma. Agora depende de uma cadeira de rodas, para as suas deslocações, mas já convive mais com os outros utentes. Apesar de ter sofrido bastante de dores de cabeça na juventude, tem aos 103 anos, boa saúde e continua pronta para viver mais uns anos. Continua muito vaidosa, com todos os cuidados de beleza e higiene.

05-04-2012 - Correio do Minho

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